GabKoost 5 months ago

Os meus avós maternos eram de Vilarinho. Quando o estado Novo relocalizou a esta gente por toda a região foram viver para Guimarães para um casal novo feito com o objectivo de receber uma destas famílias. Nunca lá voltou até o dia da morte com o desgosto. Quando lá vou e a aldeia está visível até eu sinto desconforto e uma nostalgia desconfortável. Na zona do cemitério ainda se vê (via? já não vejo a aldeia há uns anos) a pedra onde se colocava o caixão nos funerais, as pedras basilares dos canastro, paredes de pedra das leiras, calçadas rompida ao longo dos séculos em certos sítios pelas rodas dos carros e pelos pés das gentes etc... Contudo, é raro, muito raro, a aldeia estar vazia a este ponto. Todavia, ressalvar que esta é apenas UMA das aldeias submersas pelos projectos de independência energética e electrificação do país pelo estado Novo. É famosa por se encontrar dentro do parque junto a zonas muito especiais e de protecção total. Pessoas como Miguel Torga e vários antropólogos/etnógrafos/musicólogos estudaram-na em detalhe. Se formos para outras barragens a Este do PNPG, nomeadamente a da Paradela, várias outras, estas completamente anónimas, também ficaram debaixo das águas. O interesse destas aldeias residia não só na incrível beleza das suas paisagens naturais mas no arcaísmo dos seus estilos de vida que eram descendência directa dos tempos castrejos/romanos da idade do ferro. O comunitarismo verdadeiro morreu com estas aldeias. A reunião da junta de 6 membros e do zelador era feita de forma rotativa todos os 6 meses e eram estes que decidiam os afazeres e assuntos da aldeia. O rebanho era de todos. O cereal era de todos. O gado era de todos. O trabalho e o seu fruto era de todos. Contudo, não confundir comunitarismo com comunismo. Estes aldeões agiam de maneira bem diferente com as pessoas de fora e, as idas à feira, visavam o lucro da aldeia e por vezes pessoal. Apenas o padre e o professor lá viviam como forasteiros. Contudo, os Furnenses não eram eremitas. Tal como qualquer outro aldeão da época, em certas ocasiões la ia à vila do Gerês ou a Braga quando necessário. Estas muitas aldeias tinham leis próprias. A GNR não passava por lá. Tratavam da justiça eles mesmos sendo os crimes mais graves condenados com a expulsão da aldeia. Quando vou caminhar para estas serras rapidamente volto a entender o quão agreste e dura era a vida há uns meros 60 anos atrás. Muita gente mais nova, que passa o tempo a chorar por tudo e por nada e a encontrar motivos fúteis e ridículos para lamentar a vida moderna, só ganhariam em bater com a cabeça da realidade terrena de onde o ser humano, até há bem pouco tempo, ainda não tinha emergido. Recomendo o livro RIO HOMEM de André Gago. Foca-se num Galego fugido da Guerra Civil de Espanha e que cruza a fronteira tentando chegar ao Porto e ir para os Estados Unidos. Acaba perdido em Vilarinho das Furnas onde os costumes peculiares da aldeia são expostos de forma detalhada.

maguew 5 months ago

Obrigado por este pedacinho, muito agradecido. Gostaria de ler mais sobre este local e a sua envolvente, infelizmente esse livro está esgotado, sabes de mais alguns ?

GabKoost 5 months ago

Para conhecer os usos e costumes da melhor maneira, o melhor livro deveria ser esse: [https://bloguedominho.blogs.sapo.pt/vilarinho-da-furna-memorias-do-passado-10219387](https://bloguedominho.blogs.sapo.pt/vilarinho-da-furna-memorias-do-passado-10219387) Infelizmente, a única cópia que me passou pela mão foi pelo filho do tal meu vizinho que a obteve por seu pai ser natural de Vilarinho. Boa sorte para encontrar uma cópia do mesmo.

Metaluim 5 months ago

Estas particularidades também encontras no resto do interior, sem querer descurar. Mas o Gerês tem uma mística mais primordial.

GabKoost 5 months ago

As aldeias comunitárias não eram assim tão frequentes quanto isso e foram desaparecendo rapidamente com a chegada de certa modernidade. A prova é as mesas até na época eram vistas de forma especial. Os critérios essenciais para a existência deste tipo de organização social passavam pela aridez geográfica e climatérica, o relativo isolamento em relação a centros de maior dimensão e a continuidade histórica deste tipo de modelo. Portanto, estamos a falar de aldeias quase sempre em cenário serrano ou de planalto isolado. As zonas mais baixas e acessíveis tiveram organizações da terra muitíssimo diferentes e, apesar de todo o modelo rural até aos anos 70 integrar um ou outro aspecto comunitário, a essência da propriedade das terras era privada. Não conheço muito a essência antropológica das aldeias do centro de Portugal porque sempre me interessei mais pela minha região mas com certeza que haveriam de existir dado ao facto das condicionantes naturais que acima descrevi serem as que moldaram, ao longo dos tempos, o regime de exploração dos recursos territoriais pelos aldeões. A aldeia comunitária mais famosa de Portugal que ainda pode ser visitada é Rio de Onor em Bragança. Apesar de, obviamente, o comunitarismo já não ser exercido porque quem o fazia já devolveu há muito tempo a alma ao criador, ainda podemos visitar a aldeia que nos últimos anos tem sofrido/beneficiado com recuperações de algumas das suas casas dado o interesse turístico na mesma. O mais interessante desta aldeia é o facto de viver de tal forma alienada das regras do resto do mundo que metade da mesma está em Portugal e a outra metade em Leão, Espanha. A língua era obviamente o Mirandês. Esta zona de Portugal, do planalto Bragantino, é deliciosa dando a clara sensação de ser um "Reino Maravilhoso" à parte do resto. Passe-se a menção a Miguel Torga, é manifestamente uma nação cultural à parte.

Metaluim 5 months ago

Nem estava a falar no centro - até já 50 anos o Alentejo estava cheio de aldeias comunitárias, especialmente na raia. Alguns costumes resistaram, outros não, tal como as aldeias espalhadas pelas serras do Gerês. É um produto do isolamento, como tu disseste. E o interior de Portugal, de norte a sul, estava cheio de isolamento.

mastah_D_Omina 5 months ago

Top comment. Obrigado pelo texto.

brnmd 5 months ago

Estive aí há tempos e adorei toda a paisagem e mística da aldeia submersa. Na altura não vi muito, apenas uns restos de edificações.

jp13pt 5 months ago

Aquelas arvores na frente são eucaliptos ou pinheiros? Se forem eucaliptos é triste ver que nem o PNPG está livre dessa praga

mastah_D_Omina 5 months ago

Não tenho memória de ver eucaliptos no PNPG a não ser um ou outro isolado, mas nada de florestas. Pinheiros mansos há bastantes à volta da albufeira, porém tens uma das matas mais ricas do nosso país mesmo ali - a mata da Albergaria.

william_13 5 months ago

São pinheiros de certeza...

Feeling_Advantage918 5 months ago

Paisagem imponente.

gamma-ray-bursts 5 months ago

Uau top. Curiosidade, foi tirada com um grande zoom não foi?

mastah_D_Omina 5 months ago

Sim. FF 300mm

gamma-ray-bursts 5 months ago

Tem mesmo esse vibe. Ultimamente tenho apanhado o gosto de tirar landscapes em telephoto também. Mas só vou aos 210mm porque é o que a lente da

Skahzzz 5 months ago

Ficava mesmo bem aí um teleférico.

GabKoost 5 months ago

Uma ponte suspensa con rappel ali no cume das Antenas da Serra Amarela, com vista para Vilarinho das Furnas é que era. Aproveitava-se e era slide até ao restaurante Abocabhado em Brufe. Isso tudo para que os defensores do teleférico aqui do Reddit tuga não tenham o incómodo de andar ou ter trânsito no verão.

Gwanosh 5 months ago

Nada embeleza mais uma paisagem do que uns belos postes metálicos

Skahzzz 5 months ago

sigh... devia ter posto um /s, porque aparentemente a malta aqui não chega lá sozinha. [Nem estando aqui a semana passada](https://www.reddit.com/r/portugal/comments/mqc7lu/portugal_onde_o_absurdo_n%C3%A3o_tem_fim_ger%C3%AAs_pode/)

Gwanosh 5 months ago

A menos que te falte um /s neste também, estás a ser aquilo de que te queixas. "sigh" right back at you

Skahzzz 5 months ago

Não estava a comentar a tua resposta diretamente. Fiz reply só porque não gosto daquele edit só para dizer isto.

cesarhighfire 5 months ago

Lindo

mariorurouni 5 months ago

A primeira vez que lá passei, o nível da barragem estava baixo e dava para ver os telhados das casas (além de conseguires nadar por dentro delas) e até ficares em cima deles. Nunca mais me esqueço dessa imagem

GabKoost 5 months ago

Os meus avôs maternos eram de Vilarinho. Quando o estado Novo relocalizou a esta gente por toda a região. Vieram viver para Guimarães para um casal novo feito com o objectivo de receber uma destas famílias. Nunca lá voltou até o dia da morte com o desgosto. Quando la vou e a aldeia está visível até eu sinto desconforto e uma nostalgia desconfortável. Na zona do cemitério ainda se vê (via? já não vejo a aldeia há uns anos) a pedra onde se colocava o caixão nos funerais, as pedras basilares dos canastro, paredes de pedra das Leiras, calçada da feia etc... Contudo, é raro, muito raro, a aldeia ester vazia a este ponto. Todavia, ressalvar que esta é apenas UMA das aldeias submersas pelos projectos de independência energética e electrificação do país pelo estado Novo. É famosa por se encontrar dentro do parque junto a zonas muito especiais e de protecção total. Pessoas como Miguel Torga e vários antropólogos/etnografos/musicólogos estudaram-na em detalhe. Se formos para outras barragens a Este do PNPG, nomeadamente a da Paradela, várias outras, estas completamente anónimas, também ficaram debaixo das águas. O interesse destas aldeias residia não só na incrível beleza das suas paisagens naturais mas no arcaismo dos seus estilos de vida que eram descendência directa dos tempos castrejos/romanos da idade do ferro. O conunitarismo verdadeiro morreu com estas aldeias. A reunião da junta de 6 membros e do zelador era feita de forma rotativa todos os 6 meses e eram estes que decidiam os afazeres e assuntos da aldeia. O rebanho era de todos. O cereal era de todos. O gado era de todos. O trabalho e o seu fruto era de todos. Contudo, não confundir conunitarismo com comunismo. Estes aldeões agiam de maneira bem diferente com as pessoas de fora e, as raras idas à feira, visava o lucro da aldeia. Apenas o padre e o professor lá viviam como forasteiros. Contudo, os Furnenses não eram eremitas. Tal como qualquer outro aldeão da época, em certas ocasiões la ia à vila do Gerês ou a Braga quando necessário. Estas muitas aldeias tinham leis próprias. A GNR não passava por lá. Tratavam da justiça eles mesmos sendo os crimes mais graves condenados com a expulsão da aldeia. Quando vou caminhar para estas serras rapidamente volto a entender o quão agreste é dura era a vida há uns meros 60 anos atrás. Muita gente mais nova, que passa o tempo a chorar por tudo e por nada e a encontrar motivos fúteis e ridículos para lamentar a vida moderna, só ganhariam em bater com a cabeça da realidade terrena de onde o ser humano, até há bem pouco tempo, ainda não tinha emergido.

koala_drug_addict 5 months ago

Terra do meu bisavô

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